26/01/2007 ..

Ainda as frutas do trânsito



Então nesse dia parei no sinal, meu amigo – sim, agora já somos amigos – sorriu e correu em minha direção. Pensei: eu não preciso de frutas hoje, como é que eu vou dizer isso para ele? Havia dias em que eu mudava o caminho só para não passar pelo mesmo sinal porque eu simplesmente não conseguia mais deixar de comprar as suas frutas depois daquele sorriso.


Mas naquele dia eu tinha um álibi e tanto, estava sem dinheiro! Abri o vidro, sorrimos agora como de costume e eu disse: “hoje não vai dar, estou sem dinheiro”. E ele me disse: “imagina, doutora, a senhora leva o que quiser e paga depois!”.


Gestos assim valem uma vida, valem uma existência. Em pensar que eu passei tanto tempo fugindo de um ser assim! Depois daquele dia, passei várias vezes por lá e comprei as mesmas frutas que tinha à minha disposição no restaurante. Terça-feira andava correndo pela Cadeg junto com o SubSuper e esbarrei com o meu amigo, ele disse: “Oh, doutora, vi a senhora no programa da Angélica outro dia, gostei muito. Já estou indo para o sinal, daqui a pouco tem fruta fresquinha para a senhora”.


Pensei: a vida é mesmo interessante, pouco importa se eu compro as mesmas frutas que ele e no mesmo lugar, ainda assim ele se preocupa em me oferecer as melhores que tiver! Pouco importa se eu sou cozinheira, batalhadora como ele, ao seu olhar, eu ainda sou doutora!


Hoje passei no sinal de scooter, pois meu velho Peugeot está avariado. Ele sorriu como sempre e me ofereceu uvas dizendo: “vai ficar ótimo com aquele picadinho do presidente, doutora!”.


Até!
25/01/2007 ..

O sorriso das frutas do sinal de trânsito



As frutas vendidas nos sinais de trânsito são inegavelmente as melhores. Você pode ter a exata noção de estação e o que ela tem de melhor para oferecer cada vez que pára num sinal de trânsito. Isso acontece em qualquer cidade do Brasil, é praxe. A diferença é que no Rio nem sempre a gente pode se dar ao luxo de contemplar as frutas da estação quando pára no sinal porque já tem que se preocupar com tanta coisa, como a tentativa de sair vivo daquela situação, que as frutas perdem até a importância.

Passava todos os dias por um sinal no Leblon, sempre via o senhor das frutas e discretamente - porque mesmo preocupada com a segurança é impossível eu deixar de prestar atenção em alguma coisa relacionada à comida – olhava as frutas disponíveis. Mas muito discretamente mesmo, primeiro porque não queria dar conversa e segundo porque não iria abrir o vidro para comprar, mesmo que a vontade fosse grande. Coisas de morador de cidade grande.

Repeti a cena muitas vezes, até que o vendedor desistiu de passar pelo meu carro, me avistava, fechava a cara e mudava de direção. Passamos meses nessa rotina, até que um dia sorri meio sem querer ao avistar a lichia, não pude me conter, amo lichia! Aquele gesto simples desarmou o senhor que por sua vez retribuiu com um sorriso bem mais bonito do que o meu. Abri o vidro, conversamos pela primeira vez e estabelecemos uma conexão incrível.

A partir daquele dia era ele me avistar para voar ao meu encontro, sorridente, feliz e a me chamar de doutora – devia ser por causa do jaleco de cozinha, pensava eu! A partir daquele dia também não consegui deixar de comprar as suas frutas mesmo que tivesse qualquer uma delas disponíveis no restaurante.

Um dia estava sem dinheiro, mas isso eu conto amanhã!

Até!


24/01/2007 ..

Ousadia com os pés na terra e de havaianas!



O corpo moído de emoção, assim estava eu ao adentrar o salão ontem para receber os cumprimentos pela nossa nova, ousada e querida coleção 2007. Devo admitir que esse não é o melhor momento para mim, vocês sabem que gosto mesmo é do calorzinho da minha cozinha! Pudera o meu frio na barriga, no salão estavam pessoas incríveis, interessantes, e extremamente talentosas que passaram quatro horas entregues aos meus devaneios, imbuídas de uma concentração emocionante.

A noite foi envolvida pela elegância intensa e convicta da simplicidade. As havaianas relaxavam não só os pés, mas a mente, a alma e o espírito. Se sentir em casa, relaxar, estar à vontade. Encontrar a sofisticação no bem viver, essa foi a intenção quando sonhamos com todos entrando de chinelos no restaurante!

E quando a hora chegou, nossa coleção começou com os seguintes amuse-bouches: Tartare de lichia, tomate e sementes de quiabo; foie gras em geléia de abacaxi e ervas; e quiabo defumado em camarão semi-cozido. Em seguida, adentraram o salão sacolés de pitanga para limpar o paladar para os próximos pratos. Foi simples, divertido e alucinante! Eu entrei em êxtase na cozinha ao ver os convidados totalmente de bem com a vida, de chinelos e tomando sacolé!

Em seguida foi servido: creme de abacate e leite de amêndoas torradas e a pièce de resistance foi o pato assado em consommé de shimeji e cebola assada.

Esse para mim era o prato da noite, mas apesar disso eu tinha o temor de que ele pudesse não ser compreendido pela complexidade da sua simplicidade. O pato foi assado no momento, temperado apenas com sal e pimenta do reino, servido sobre um leito de cebolas lentamente assadas em brasa morna, shimejis brancos e cinzas levemente cozidos, quase crus, e envoltos por um consommé leve, clarificado, quase etéreo. Ou seja, pouquíssimos elementos, a natureza viva, a dignidade do gosto protegida, respeitada ao extremo grau da minha crença. Nada de molhos, nada de sal em excesso, nada que pudesse confundir o paladar ou levá-lo para qualquer outro lugar que não a terra e seus significados mais verdadeiros.

Mas por isso mesmo, imaginem a minha aflição em saber se essa loucura da natureza seria compreendida? Pensei por um momento: “Meu Deus, que ousadia a minha! Enlouqueci!”.

Enganei-me. A primeira frase de Danusia Bárbara, que para mim é uma referência, foi: “aquele pato...”. Respirei aliviada, a minha obsessão pela integridade do sabor ainda tinha lugar nesse mundo de nitrogênio líquido e sifões! As pessoas estavam felizes com a possibilidade de viver a ousadia sem subterfúgios. E eu mais ainda, por ter ido fundo nessa busca sem abrir mão da minha filosofia.

Quando entrou a beterraba em caramelo e leite de pistaches, não sei se as pessoas pensaram que essa era a sobremesa ou mais uma das minhas ousadias da noite! Era a sobremesa, singela e intensa ao mesmo tempo. Mais uma vez a tentativa de trazer a terra para o prato, dessa vez em forma de açúcar, o açúcar puro da beterraba. O último era o que chamávamos de petit four vivo, mas talvez alguns tenham pensado que esse sim seria a sobremesa, pouco importa! A cozinha é livre, as pessoas também e isso é bom! Nosso petit four vivo era um croustillant de leite maltado e laranja, que se não chegasse à mesa imediatamente após ser preparado simplesmente desencarnava!

Com o café e o chá foram servidas madeleines ao mel assadas no momento. Terminamos a noite com as mãos queimadas, um pouco de tensão e cansaço físico, mas de alma lavada!

Até!
23/01/2007 ..

Lançamento de tendências culinárias 2007



Enquanto todos só pensam nas havaianas brancas, que são o convite para o lançamento das tendências culinárias 2007 do Roberta Sudbrack, nós – a galera do backstage – estamos enlouquecidos com os preparativos!

Pratos saindo da minha cabeça a todo instante, equipe tensa e concentradíssima com o que virá pela frente. Meu processo criativo é muito louco. Fomos cedo à Cadeg, abastecemos a casa e rumamos para a cozinha no velho Peugeot. Tive uma reunião com o SubSuper para explicar um pouco das minhas intenções e logo após despejei um menu de nove pratos absolutamente novos na cabeça dele! Disse: “Suba e comece a pensar no que eu faria, afinal a nossa cozinha tem uma linha, um conceito, então não está tão difícil assim. Daqui a pouco eu subo e a gente começa!”.

Ele me olhou, sorriu, suou e foi! Afinal que escolha teria ele? Acabei de descer de lá para anunciar o nascimento do primeiro prato da nossa coleção: Quiabo defumado em camarão semi cozido.

Ou vocês acharam que os pratos já existiam? Claro que não. Gosto dessa adrenalina! Provavelmente lá pelas 19h - hoje não arredo pé do restaurante - ela esteja começando a ser finalizada, ou não, às vezes entre em campo para definir!

Vida Boa! Esse é o tema da nossa coleção esse ano, por isso as havaianas, a alegria e a insensatez. Essa última, em homenagem ao aniversário de Tom Jobim, que faria 80 anos e estaria mais moderno do que nunca. É isso: em busca do tempo perdido, lá vamos nós!


Até!

22/01/2007 ..

Dia de festa, ainda!



Hoje tem mais festa no reino do Grande Ego, a primeira “SudParty” de 2007. Bom para mim, que sigo comemorando os dois aninhos de vida da Casinha Laranja, o encontro incrível e intenso de almas amantes de quiabo e o lançamento da minha nova coleção de tendências culinárias que acontecerá na terça-feira dia 23. Ou seja, festa, festa, festa! Feliz de quem pode começar o ano assim! Bruno: eu também sou feliz! Cadê o Bruno?

Acordei pensando se vai ter brigadeiro. Sou louca por brigadeiros, é um dos meus passatempos preferidos procurar pelo brigadeiro perfeito. Esse, ao contrário do éclair de chocolate – que ainda vivo a procura do quase perfeito - já encontrei! O da “Colher de Pau”, aqui no Rio, é absolutamente imbatível! Textura aveludada, crocante na superfície, mas na medida certa – nem mais nem menos - e cremosidade perfeita. Esse não é quase perfeito, é perfeito mesmo! E curiosamente isso não me incomoda, simplesmente porque esse já atingiu o grau absoluto de prazer gustativo e, se melhorar, literalmente estraga!

Tem uma ciência, que não sei se é exata ou não, na maneira de preparar o brigadeiro – que na minha terra se chama “negrinho”. Acredito profundamente que tem a ver com a qualidade dos ingredientes, a tranqüilidade no preparo – há de se ter a mesma concentração e boa energia das baianas quando preparam a baba de moça – e acima de tudo a precisão. Tem um momento certo de parar, extremamente exato e crucial.

Brigadeiro é coisa séria, pode-se dizer que é quase um preparo da cozinha molecular de tão preciso e meticuloso! Mas eu, que não ou muito chegada nessa onda, acredito mesmo é na precisão humana das “santas" cozinheiras desse país, cheias de energia boa, conhecimento emocional e fórmulas exatas, retiradas de caderninhos manchados de receita!

Até! A SudParty
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